26 de fevereiro de 2012

24 de fevereiro de 2012

Debate Dawkins-Wiliams


Teve lugar na Universidade de Oxford, ontem 23 de Fevereiro, um debate entre Richard Dawkins e Rowan Williams, moderado por Anthony Kenny, sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem última”. O debate decorreu de forma serena e nele foram abordadas, ainda que brevemente, questões importantes algumas das quais refiro a seguir.

1. Kenny perguntou a Williams se acreditava na existência de uma alma espiritual. A resposta dada por Wiliams é muito semelhante à do actual Papa quando era Cardeal e que reproduzo a seguir:
‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo que numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’ “.(J. Ratzinger, Introduçáo ao Cristianismo, Estoril:Principia, p. 259)

2. Dawkins perguntou também a Williams se a sua crença na imortalidade se baseia na existência de uma alma espiritual. Também aqui a resposta de William é semelhante à de Ratzinger:
“podemos entender de uma nova maneira a mensagem bíblica que não promete a imortalidade a uma alma dissociada do corpo, mas sim ao ser humano como um todo.” (Introdução ao Cristianismo, p. 254).
Tal como afirma também Ratzinger na mesma obra, Williams disse que o que é imortal é a relação que Deus estabelece com cada ser humano.

3. Uma outra questão que foi colocada a Williams tem a ver com o aparecimento dos primeiros seres humanos no processo evolutivo. Terá Deus criado almas para eles? Williams respondeu no mesmo sentido de Ratzinger, para o qual

“a argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano – por mais balbuciado que fosse – dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantava no mundo.” (J. Ratzinger, “Fé na criação e teoria da evolução” em id., Credo para Hoje, Braga: Editorial Franciscana, 2007, p. 49.)

4. Dawkins perguntou a Williams por que razão os crentes ainda lêm o livro do Génesis sobre a origem do mundo em vez de lerem os livros de ciência do século XXI, pressupondo que os cristãos estão fundamentalmente desactualizados. Mas Williams deu-lhe a resposta mais óbvia: os cristãos continuam a ler o Génesis porque não procuram nele teorias científicas. Não creio porém que Dawkins deixe de continuar a fazer a pergunta.

5. Dawkins afirmou por várias vezes nada saber de filosofia num tom de quem se orgulha disso. Para ele, como para muitos cientistas, mas não para todos, o discurso científico esgota tudo o que há a dizer sobre a realidade. Ele desconhece porém que o pensamento humano precisa de conceitos e os conceitos filosóficos têm sido utilizados proveitosamente para a própria ciência por cientistas tão importantes como Einstein.

6. Foi ainda mencionada a questão da liberdade do ser humano. Dawkins afirmou que as neurociências têm experimentalmente demonstrado que a liberdade é uma ilusão. Esta afirmação é contudo inaceitável num cientista com as responsabilidades de Dawkins. Ele deveria saber que esta é uma matéria muito debatida sobretudo desde as experiência de Benjamin Libet, há cerca de três décadas, e que continuam ainda hoje a ser objecto de controvérsia entre os próprios neurocientistas. Também o tão celebrado ateu Sam Harris defende num livro anunciado na Amazon para sair no próximo dia 6 de Março, que Libet ‘demonstrou’ que a liberdade é uma ilusão. Tal como Dawkins e outros ateus mais conhecidos e apreciados, como Hitchens, Harris escolhe cirurgicamente as experiências que corroboram a sua posição, ignorando sistematicamente as que a põem em dúvida. Este é também o estilo argumentativo destes autores na sua crítica à religião e, mais concretamente, ao Cristianismo. Escohem uns factos, os que lhes convêm, e ignoram outros factos que colocam em causa as suas teses. Uma tal argumentação é inteiramente falaciosa e tem um valor nulo.

7. Dawkins afirmou igualmente que as probabilidades de Deus existir são muito baixas, mas não explicou como chegou a essa conclusão. De que género de probabilidades fala? Como calcula uma baixa probabilidade para a existência de Deus?

Alfredo Dinis,sj

22 de fevereiro de 2012

cinzas



A verdade..

a verdade é que...

na verdade, queria dizer...

deixa-me dizer-te a verdade...



vemos, fazemos a experiência do ver. E coisas há que estão por ver.


não vejo tudo.

tempo para ver...


20 de fevereiro de 2012

inútil paisagem

acompanha-nos uma inquietude

que nos furta ao descanso:

o acaso gerou-me,

partículas encontraram-se...

e o outro interpela-me?

e o significado atormenta?

... e o espanto mobiliza?

tudo é inútil paisagem.

e sinto-me convidado a entrar

e a inquietude é lugar fecundo.

Debate com Dawkins



1. No próximo dia 23 terá lugar na Universidade de Oxford um debate entre Richard Dawkins, e Rown Williams (Arcebispo Anglicano de Canterbury) moderado por Anthony Kenny. Embora o debate tenha lugar numa ampla sala (Sheldonian Theater) e seja transmitido por vídeo para uma outra sala no Departamento de Física da Universidade, os lugares – pagos, no Sheldonian Theatre - foram todos reservados em questão de horas após o anúncio do debate. O mesmo aconteceu com os lugares disponíveis no Departamento de Física. O debate, promovido pela Faculdade de Teologia, sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem última” pode ser seguido em directo (16.00h-17.30h) pela internet no site http://fsmevents.com/sophiaeuropa, no qual ficará também arquivado o respectivo vídeo. Para seguir a transmissão em directo é necessário dispor do programa Adobe Flash Player. A página indicada permite realizar um teste para certificar que o programa está instalado no computador e, caso não esteja, fazer o download.

2. Richard Dawkins continua muito envolvido na sua missão de espalhar a ‘boa nova’ de que Deus não existe e a religião deveria estar fora da vida pública, uma tese muito comum aos não crentes e actualmente em debate público em Inglaterra nos últimos dias, de tal modo que até mesmo a Rainha, tradicionalmente silenciosa, veio a público defender a presença da Igreja Anglicana na sociedade Inglesa. No passado Domingo, o Jornal Britânico The Observer publicou um conjunto de cartas trocadas entre Dawkins e o jornalista William Hutton sobre esta questão. As cartas podem ser lidas no site do jornal. Dawkins apoia-se em sondagens que mostram o declíneo do número de ingleses que se declaram cristãos. Também por esta razão ele defende que a religião deveria ser mantida na esfera privada – até mesmo íntima. A religião, no caso o Cristianismo, deve, segundo ele, permanecer no silêncio e no segredo do íntimo de cada um. Não deixa de ser surpreendente que seja um não crente a dizer aos crentes de que modo devem viver a sua dimensão religiosa. Por outro lado, a vertente social, comunitária, da religião em geral e do Cristianismo em particular, constitui um elemento fundamental da sua atureza. Deste modo, a posição de Dawkins tem a ver não apenas com a questão do lugar do Cristianismo na sociedade mas com a questão da própria natureza da experiência Cristã.

3. Dawkins surge como ‘um homem com uma missão’: divulgar a ‘boa nova’ da não existência de Deus e da natureza privada da religião. Objectivamente, ele assume atitudes que critica nos Cristãos: a sua palavra é indiscutível, infalível. Que eu saiba, nunca admitiu que em alguma coisa se tenha enganado, ou que as suas posições possam ser postas em dúvida. Os seus argumentos são para ele inatacáveis e quem os não aceita revela falta de inteligência e de objectividade. As muitas obras de análise crítica das suas obras não lhe merecem mais que um sorriso de desdém. É pena que assim seja. Como tenho defendido repetidamente, o Cristianismo só tem a ganhar com críticas objectivas, venham elas de onde vierem, também de ateus. Mas as críticas de Dawkins, como as dos ateus em geral, enfermam de muitas das falácias que constam de qualquer manual de teoria da argumentação.

P. Alfredo Dinis,sj

19 de fevereiro de 2012

"Porque pensais assim?" (Mc 2, 1-12)

"Jesus oferece o perdão de Deus a estes homens que deveriam normalmente fugir da sua presença. Oferece a salvação de Deus aos excluídos por todos, sem averiguar primeiramente o seu passado, sem lhes exigir previamente penitência.
Segundo a tradição farisáica, o pecador pode converter-se de novo a Deus e esperar de Ele o perdão através da penitencia e das boas obras. Mas o que torna em novidade a escandalosa opção de Jesus é o seu oferecimento gratuito do perdão generoso de Deus. Esta actitude de Jesus distingue-o dos círculos farisáicos, das diversas tendências religiosas contemporâneas, e mesmo de João Baptista. O Baptista aceita também os publicanos. Mas aceita-os para a penitência, após terem manifestado o seu desejo de começar uma vida nova. Jesus oferece o perdão de Deus aos pecadores mesmo antes de que eles façam penitencia. Por isso, o gesto simbólico que caracteriza a mensagem e o agir de João é o baptismo de penitência. Porém, o gesto que caracteriza a mensagem e o agir de Jesus é o banquete festivo com os pecadores.
Deus não se revela aos sábios fariseus que conhecem a lei e a observam, mas a estes pequenos, incultos, que nem a conhecem nem a observam.
Esta prioridade de Jesus exprime surpreendentemente uma mensagem de perdão e de salvação desconhecida em toda a tradição judaica".

Eis a radical inovação!
Eis o compromisso de perdão para os dias que correm...
Um perdão que, entre ameaças de morte, não deixa de insinuar vida.


"El ofrecimiento del perdón" in Jesús de Nazaret: El hombre y su mensaje,
de José Antonio Pagola.

16 de fevereiro de 2012

Pietà, por Vasco Graça Moura

A imagem da mulher que segura o filho morto nos braços tornou-se, a partir da Idade Média, uma importante referência plástica e emocional do Cristianismo. (...) a figuração da mater dolorosa tornou-se um símbolo do drama humano que representa a perda de um filho. Mas na série avulta, sem carga expressionista, a Pietà do Vaticano, de Miguel Ângelo (1499), em que são representadas a gravidade melancólica da mãe, alcandorada a um idealizado plano neoplatónico e metafísico, e a morte do filho, a finitude irremediável do corpo humano, numa articulação indissociável e deslumbrante entre esses dois planos.

Na pureza das suas linhas, a beleza daquela mãe não é deste mundo e não exprime, sequer contidamente, a dor lancinante de quem acaba de perder um filho. É antes uma figuração da ordem do transcendente e do intemporal. (...)

No entanto, o corpo morto que essa mulher ampara nos seus braços é bem deste mundo no seu realismo insuperável. É um cadáver cujo peso inerte nos é dado com suprema mestria, na modelação e na sugestão dos músculos e das veias no mármore polido, num abandono fortemente acentuado pela maneira como o braço direito de Jesus tomba até ao solo e como o corpo dele, esvaídas todas as tensões, resvalou para a morte, e nos é exposto naquele regaço.

Falando disso, dizia Vasari ser "certamente um milagre que uma pedra inicialmente sem qualquer forma tenha sido levada àquela perfeição que a Natureza se empenha a formar na carne". Não tem nada de metafísico e, todavia, tem tudo de metafísico. É a morte daquele homem ali representado na beleza material das linhas do seu corpo sem força, mas é também, no colo de quem lhe deu vida, a morte do Homem, projectada numa dimensão do universal.


É para essa dimensão cultural e existencial que remete a extraordinária fotografia de Samuel Aranda, agora premiada pela World Press Photo. A imprensa salientou, justamente, a sua relação formal com a Pietà. Uma composição triangular, em que uma mulher velada segura o corpo de um homem. Não sabemos se é seu filho ou não. Não sabemos se está morto ou apenas ferido. Não sabemos a idade que ela e ele têm. Mas sabemos o que nos lembra.

Se historicamente uma cena semelhante ocorreu na morte de Jesus, esta imagem é muito mais "realista" na representação correspondente à mãe, do que a de Miguel Ângelo na vibração renascentista esplendorosa da sua Pietà.

E se é certo que um episódio ocorrido no Iémen não tem nada a ver com a morte do nazareno, também é certo que nós não conseguimos lê-lo sem esse referente iconológico fortíssimo da tradição ocidental. Os clássicos ajudam-nos a interpretar o mundo.

texto na íntegra