30 de março de 2012

Percursos da quaresma: perdoar


Perdoar é a capacidade de superar os caminhos sem saída a que podemos ter chegado. É começar de novo, começar mais livre. É capacidade de abraçar os lados escuros da vida e fazer deles caminho de luz e esperança. Perdoar é ter na pele uma dor que não quer voltar a ser sentida, mas que quer ser acariciada. Toda a experiência de perdão tem a marca de um amor que nos faz regressar à vida, que nos devolve a nós mesmos, aos outros e a Deus.

Pe. António Valério, sj


original aqui

29 de março de 2012

Pior sem erro


“Será, portanto, melhor que eu me engane do que não me engane?” A angústia de Descartes encerrada neste dilema ressuma profecia. Aponta para a conveniência do equívoco. A fraqueza humana perante a verdade encontra um respiro. Uma resposta negativa sepultaria toda a esperança de conhecimento permanentemente infalível. Porém, o “sim” rotundo e confiante desenha um caminho de constante aprendizagem. Esta suspeita cartesiana acerca das possibilidades inerentes ao engano, exprimida quase no início deste quarto fragmento das meditações, suscita um elogio. O erro reclama um elogio, e eu não lho negarei nestas linhas.

Errar coincide em essência com a incapacidade de acertar sempre. Os sonhos de perfeição alojados no homem diluem-se com a presença incómoda do erro. Embora o deseje, o homem não é perfeito. Assim sendo, aceitar as próprias incapacidades parece mais recomendável para a saúde existencial de cada um do que alimentar-se com ilusões de perfeição. A pergunta intencionada de Descartes sugere esta conformidade, pois não só o engano é humano, como é humanizante. O erro escolta a caminhada do homem enquanto vive. Esculpe-a para lhe dar uma estrutura sólida. Nenhum bebé nasce sábio, mas são poucos os idosos que morrem sem sabedoria. Sabedoria de vida que não pressupõe a ausência de equívocos, mas a adequada atitude interior adoptada para os ultrapassar. O erro chateia porque denuncia a nossa fragilidade, mas é um inimigo imprescindível. Como corrigir a falha sem ele se pronunciar primeiro? Como aprender sem reconhecer antes a ignorância? Como avançar sem admitir uma rigidez prévia? Concluo afirmando que o erro dinamiza. Raramente bem-vinda, a energia que o erro desencadeia em nós põe-nos rumo ao encontro duma integração pessoal cada vez mais perfeita, ainda que nunca idêntica à perfeição. Convém-nos muito incorporar o erro com naturalidade, enquanto puramente humano e tremendamente humanizante.
O optimismo funcional perante este erro-conveniente significa que o erro é, em si, uma situação a evitar, mas largamente proveitosa quando chega… Certamente, ninguém vive sem errar e, quem achar o contrário, é o mais enganado de todos.

26 de março de 2012

A exigência da co-vivência


A co-vivência exige sabedoria. Podemos ser levados a pensar que coincidir com alguém num espaço é de tal forma natural que nada mais nos é pedido que partilhar oxigénio e uma ou outra opinião. Equivocamo-nos: a co-incidência não é co-vivência. Pelo nascimento, não somos projetados contra um outro; pelo contrário, somos chamados a viver lado a lado.

Quem sou eu? Quais são os meus gostos, os meus apetites, as minhas paixões? Quem sou eu? O que é que me eleva, o que é que me deprime? "Quem sou eu?" urge questionar, deixando a pergunta cair em mim no seco do estômago: ambicionar a consciência cortante de mim.

E quem é o outro? Que histórias lhe conheço, o que me interpela - nele e dele - que hábitos me agridem e que virtudes me encorajam? De que forma ele não me é neutro, mesmo no mais fugaz e extemporâneo encontro? Tenho consciência deste ligame tão vital que me define? Eu vivo o outro em mim, cordas profundas são simultaneamente despertadas e abafadas por que o outro me surpreende: o fato de um outro existir intriga-me, ainda que eu cale a dúvida que a sua presença é.

Vivo e existo só, e é em solidão e por solidão que descubro o outro: ela é força motriz, embala e impele. Nesse lugar de desassombrada consciência que a solidão pode ser, quando o é, ocorre a revelação do outro. Ele não existe para mim fora da minha percepção e, por isso mesmo, ela tem de ser enriquecida.

25 de março de 2012






Dias virão em que possuirei um coração puro

Dias virão em que estarei limpo e purificado
Dias virão em que habitará em mim um espírito firme e pleno de santidade
Dias virão em que as preces, as súplicas, os clamores e as lágrimas serão elevados da terra
Dias virão em que não me importa a vida, porque verei a Deus.


23 de março de 2012

Percursos da quaresma: interior

Quando falamos de conversão em tempo de Quaresma, falamos na mudança das nossas atitudes perante a vida e os seus desafios. Mas a conversão tem também a ver com a conversão daquilo que é prioritário. Temos o perigo de confundir o prioritário com o urgente. É que o imediato veste-se facilmente com a roupa do essencial. E acabamos por deixar para trás o crescimento das coisas interiores para nos dedicarmos exclusivamente às aparências exteriores. O grande desafio está em tornar essencial aquilo que não se vê. O desafio está em converter o nosso tempo naquilo que há de melhor em nós.
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Pe. António Valério, sj

original aqui

20 de março de 2012

Dawkins sobre o sentido da vida


“Não é apenas a nossa improbabilidade que nos torna agradecidos por estramos aqui, porque de facto somos muito improváveis. Somos também privilegiados não apenas por estarmos aqui mas também por pertencermos à espécie humana, porque a espécie humana é realmente única: entre todos os animais somos os únicos a saber que vamos morrer. Mas somos também únicos por sabermos que vale a pena existirmos. É claro que é difícil lidar com o sofrimento e a perda, mas há alguma consolação em sabermos o quão privilegiados nós somos por estarmos aqui.” (Richard Dawkins)

Esta breve afirmação de Richard Dawkins retirada de um vídeo (disponível no youtube), em que discute com Daniel Dennett a questão do sentido da vida não deixa de ser surpreendente, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque afirma que nos devemos sentir agradecidos, mas não diz a quem. Em segundo lugar porque considera que o saber porque estamos aqui e que somos únicos entre todos os animais parece ser suficiente para compreendermos o sentido da vida humana. Em terceiro lugar, porque este saber e esta atitude nos consolam em momentod e dor e de sofrimento.

É muito comum entre os ateus militantes como Dawkins e Dennett intelectualizarem a existência humana, uma intelectualização que é feita em termos científicos. Mesmo o sentimento de maravilha do cientista perante a beleza do universo se baseia no sabermos cientificamente porque estamos aqui. Há uma desdramatização total da vida humana. Fico sem saber se ao encontrar uma pessoa em grande sofrimento por ter perido um ente querido, por exemplo, a deverei aconselhar a procurar consolação junto de um biólogo, o qual lhe explicará a razão científica da existência, do sofrimento e da morte.

18 de março de 2012

Disse João...

"Tanto..." A quantidade feita adverbo. O seu significado infla-se com cada repetição. Limitar as suas capacidades é um absurdo. Alarga-se, sem fim, para abranger melhor. Mais é impossível. "...amou..." Atrevimento espantoso. Não se esgota no passado, pois visita também este presente. O futuro espera, sossegado, os seus efeitos. Atitude atemporal. Verbo fundamental. "...Deus..." (Não consintas que te defina) Superas toda a palavra porque te intuímos numa maiúscula. Alojas-te no pequeno para gerar grandeza. De todos os tempos conheces os segundos. Inspiras intimidade no latejar de cada criatura. Tu tão nosso por sermos teus. "...o mundo..." Este. Não há outro. Banho de realidade que mendiga um olhar benevolente. Tão criticado, tão amado. Férreas estruturas impedem a sua flexibilidade natural. Mundo de aqui, constante Humanidade. "...que..." Há consequências. "Tanto amou Deus o mundo... que algo acontece". A intriga é suspense. Acontece já! "...entregou..." Generosidade explícita. Excepcional iniciativa. Gratuidade superlativa. Sem deixar de Ser, foi de outra maneira. Opção derradeira. "...seu..." Pertence-te. Tanto como nós a Ele. Como nós a Ti. Identidade misteriosa em comovente filiação. O Teu para nós. "...Filho..." Filho, o Filho, Teu Filho. Não sabias dar menos. Não querias. O inefável falou. O transcendente caminhou. E fala, e caminha. Connosco hoje, sim. Assim, irmãos todos. Fraternos. "...unigênito..." Da unidade brotam muitos. Fértil desprendimento. Brado com sabor a riso. Ninguém sozinho após a tua solidão. Solidão impossível (milhões de crentes evitam-na). Um é referência. "...para que..." Tens uma intenção. Sussurra-no-la com paciência. Insiste. Não deixes de desejar o que desejamos. Dá finalidade a tudo quanto conhece fim. Traz coragem, age convicto, traz-nos vontade! "...todos..." São muitos. São todos. Somos. Sem rejeitados, só recebidos. Por que exclusão? Distâncias aproximadas são comunhão sincera. Homens e mulheres. Todos. "...tenham..." Formosa prenda. Sem embrulho e sem surpresa. Simples oferta. Para usufruir sem possuir. O máximo agradecimento é sempre insuficiente. Mesmo assim, "tenham!". "...a vida..." Substantivo tão digno, tão ameaçado... Absolutamente nada sem ela, completamente teus após a terrena. Enquanto respiramos, floresça a humildade e a alegria. Beneficiem-se as relações. O quotidiano é tempo e espaço favorável, de variados momentos e lugares. Enche-no-lo de dias! "...eterna" Começou há muito. Ainda é um agora. Que assim seja, para sempre.