Setembro 14, 2013
1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum
oferece-nos a proclamação e audição integral, assim vivamente o espero,
da grande parábola de Lucas 15. A página lucana tem lugar garantido em
qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.
2. É a história dos pecadores e dos
publicanos, dos escribas e dos fariseus. De uns e de outros, todos temos
um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com
alegria; os segundos para o recriminar com azedume pelo facto de ele
receber os primeiros e comer com eles. Há, portanto, aqui um
comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de
Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz um Evangelho, uma Notícia
Boa. Os fariseus, porém, não consideram a Notícia suficientemente Boa.
Por isso, dele se aproximam os pecadores, até então marginalizados e
hostilizados pela tradição religiosa vigente; por isso, o recriminam os
fariseus e os escribas, os garantes da velha tradição religiosa,
rigorista, classista e exclusivista.
3. A estes últimos conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola, «esta parábola» (taútên parabolên)
(v. 3), no singular, e não três parábolas, como é usual dizer-se.
Note-se também que, para escutarmos correctamente «esta parábola» de
Jesus, é do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar,
dado que é para eles que Jesus conta a parábola. «Esta parábola» é,
portanto, para eles e para o nosso lado orgulhoso, classista e
exclusivista, para o nosso como eles. É notório que, dado o desenrolar
da história contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha
perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de
ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos com direitos e
créditos sobre Deus, como também nos revemos habitualmente naquele filho
que sai de casa e que acaba por voltar, sendo recebido por um Pai
carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para que a história nos
caia em cima, como um relâmpago, é mesmo do outro lado de nós que nos
devemos colocar.
4. A eles e a nós mostra Jesus a premura
do pastor que corre, ainda que seja a vida inteira, à procura da sua
ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a
encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A
mesma premura e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a
moedinha que perdeu no chão de terra e basalto negro da sua humilde
casa.
5. Mas já Jesus traz para a cena, sem
deixar a audiência respirar, um Pai excepcionalmente maravilhoso e bom,
em quem pulsa um imenso coração e vibram entranhas de misericórdia. Tem
dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que
opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da
herança. Note-se que todo o pai dá três coisas aos seus filhos: o pão,
todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a herança, uma única
vez na vida, pouco antes de morrer. O pedido deste filho assume,
portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho
como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo
mais ser filho nem depender de nenhum pai.
6. Parte para longe, gasta tudo,
torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco
(não lhe é sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). É o
seu ponto mais baixo. Pensa então em voltar para casa, mas como
assalariado, não como filho. Prestemos atenção ao discurso em três
pontos que prepara: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou
mais digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15,18-19).
7. Ei-lo, portanto, que regressa. Mas já
o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. Mas o
filho tinha preparado o seu discurso em três pontos, e ei-lo que começa a
debitá-lo: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais
digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15,21). Como se compreende, o
terceiro ponto deste discurso era fatal, e o filho já não o diz. Não
porque não quisesse, mas porque o Pai o interrompe, dizendo aos criados:
«Depressa…» (Lucas 15,22).
8. É então que a surpresa enche outra
vez a cena. Quando nós regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos
um Pai distraído, ou que mudou de residência, ou que responde de forma
brusca e fria. Está lá sempre à nossa espera, de braços abertos,
precede-nos, recebe-nos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o
primeiro vestido» (stolê tê prôtê) (Lucas 15,22), isto é, o que vestíamos antes e abandonámos, portanto, o de filhos, quando nós queremos é ser assalariados. Depois, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete de arromba (euphraínô), vai mesmo até ao ponto de chamar uma orquestra (symphônía)! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia!
9. É aqui que surge o outro filho,
retratado como um bom cumpridor de ordens, um «justo» e zeloso fariseu,
igualzinho aos fariseus «justos» e zelosos que tinham aparecido no
início da história. Tal como estes, também este filho se acha com
direitos e créditos sobre Deus. Em Deus não vê um Pai, mas um patrão que
tem de lhe pagar, pois «nunca transgrediu uma ordem dele» (Lucas
15,29). Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história
recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, também este
filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer
com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria.
Mas a história termina sem nos dizer se este filho, que somos também
nós, entra ou não entra. Final estratégico. Afinal a história de Jesus
foi contada para os fariseus, e nós devemos ter compreendido que devemos
tomar lugar ao lado deles, pois também nós temos uma boa parte de
fariseus, para sermos atingidos em cheio pela história. A história
termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou não entrou na
sala da alegria. História deixada propositadamente em aberto pelo
narrador. Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós. É
então a nós que cabe tomar a decisão! Como vemos Deus? Como um Pai ou um
patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os
insultarmos e denegrirmos?
10. É também interessante notar que os
dois filhos desta história falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os
cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam
um ao outro. Se calhar, também como nós. Só sabemos falar por trás,
entre raivas acumuladas, insultos e desprezo. Parece que também neste
aspecto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto!
11. Por último, a história que ouvimos
mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe, no
deserto, como a ovelha e o filho mais novo, como nos podemos perder em
casa, como a moeda e o segundo filho. Atenção, portanto: podemos andar
perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem lareira, sem
mesa e sem alegria! Só com patrão e assalariados! E, ainda por cima,
podemos pensar que somos zelosos e até beatos (!), muito melhores do que
os outros. Todos os cuidados, portanto!
António Couto