Esta narrativa é um
traço, um desenho simples, que vai descrevendo e contornando personagens,
espaços e lugares. “…havia também uma
beleza de linhas e de formas à qual não era estranha a sua beleza
feminina…inclinando o corpo de lado pela cintura, eram exactos e cheios de
graça.”, “Tinha um pescoço
horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as
omoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém, a nuca
perfeita de redondeza, nem saliente, nem retraída. O tronco era uma verdadeira
maravilha”. Escreve Vitorino Nemésio acerca deste romance: “a mesma linearidade prodigiosa, talvez ainda
mais elementar que a do seu desenho”. O autor utiliza a sua caneta sem
repassar os traços feitos, suportados por três grandes círculos que envolvem a
história e se envolvem a si. São círculos independentes, e imiscuídos uns nos
outros, e também espelhos uns dos outros. São os três nascimentos, cada um
aproveitando o traço do anterior, mas regressando sempre à origem, à essência,
à arché, sem contudo serem o mesmo. Assim
as personagens vão sendo desfiadas e entrelaçadas, com os espaços, com as
ideias, com as formas que nos vão surgindo na imaginação. Sim, porque o autor
vai desenhando mais do que na folha de papel, na nossa cabeça, traços
singulares, desenhando nomes de guerra, desenhando judites, diferentes para
cada hora do dia, Antunes diferentes conforme o estado espiritual, e Marias tremendamente
tristes. A moralidade e a espiritualidade transpiram do papel desenhado, com
traços bem definidos, cada um ocupando o seu lugar, pois caso se cruzem podem
reflectir a moral do romance: “ Não te
metas na vida alheia se não queres lá ficar”.Como na nossa vida, os traços sobrepostos baralham o desenho.
A palavra
De facto não é um
romance comum. Apresenta um traço claramente modernista, de rompimento com
estruturas literárias tradicionais. Apresenta um estilo sincopado e sintético,
avançando tangente aos temas da natureza, da vida e da existência. Não é uma
história com princípio, meio e fim, mas traça curvas sinuosas, valorizando
muito o mistério, o misticismo, por vezes cristão outras vezes pagão, remetendo
para um outro tempo, o do céu, da astrologia, uma perspectiva assente num
dualismo platónico, um mundo ideal, mágico, o mundo das estrelas que escreve e
determina o vida dos seres errantes. No final, como por ironia apresenta uma
moral, à maneira de fábula.
Imagem
“ Anoitecera. O Antunes tinha-se deixado ficar à janela. A ver aparecer
as estrelas e a Lua.” Das águas furtadas, Antunes está mais perto do
transcendente. No topo do prédio vê o céu para poder ver o mundo. E
misticamente experimenta a influência do absoluto no decurso das coisas. “ O Antunes entendia estas coisas todas nas
estrelas e sem ser por palavras recebidas no seu pensamento”. Antunes
rasga-se da terra para contactar com o céu, porque vê nas estrelas a verdade, “ aquilo parecia uma história verdadeira”,
a verdade que os homens não são, porque não são chamados pelos próprios nomes,
mas por nomes de guerra; por isso Judite não existia, era anónima, não
tinha nome, Antunes entende isso e foge para o céu, subindo até às águas
furtadas. Quer fugir do espelho e chegar à face, “Agora, vemos como num espelho, de maneira
confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido”, chegar à identidade e não ao
determinismo, chegar ao tutano das coisas. Apercebe-se quea realidade mundana é ilusão, é automatização, e é no céu que tudo
se revela como realmente é, sem máscaras, sem nomes de Guerra, com nomes, com
faces, com pessoas.
Partilhamos um gosto pelo seguro, pela certeza, e a distância da
incerteza a esta certeza é medida em quantidades de conhecimento relevante
acumulado. Buscamos amealhar conhecimento para suprir a fragilidade básica da
insegurança, procurando conforto na compreensão. Este afã curioso de milénios,
sistematizado e cada vez mais minucioso, leva-nos a saltos e a realidades onde
nem a imaginação de outrora suponha entrar, onde a ficção foi timorata.
Será possível um estado
de conhecimento completo que nos guie à total previsibilidade e compreensibilidade
dos fenómenos? Encontraremos um termo para todo este indagar? Laplace supôs que
a uma tal inteligência nada seria obscuro, em nada seria falha de compreensão:
tudo medido em causalidade, o determinismo mecânico deste autor – como o de
Newton – permite especular sobre a mente infalível.
Inclinamo-nos a dizer
que acaso é fruto de falta de informação-compreensão, mas que não é somente uma
lacuna. Conseguimos encontrar o acaso, o incompreensível-improvável no ligame
causal, justificado pela carência de conhecimento: as teorias
objetiva-subjetiva encontram-se e complementam-se, restando sempre incerteza.
Existirá um espaço da certeza sem qualquer vestígio de incerteza, ou todo
o conhecimento exige na sua base, agora e sempre, uma opção determinada, uma
convicção da mente, um ato de fé, uma crença? É assaz curioso que vivamos de
tão perto com a nossa própria contingência e com os limites conhecidos da
existência e, ainda assim, persistimos perante o que nos surpreende a
agitar-nos freneticamente: convencemo-nos da magna previsibilidade da vida, do
hipotético aviso de entrada no porto com antecedência de três dias a cada nova
situação-embarcação. Persuadimo-nos sem razões aparentes, nem experiências que
o confirmem, da perspicácia das nossas projeções, e de tal forma nos arreigamos
às expectativas que não nos conseguimos desprender da ideia de que estas não
são a única hipótese passível de concretização, de que expectativa é conceito
distinto de verdade. O acaso é um convite a reconciliar-nos com a nossa própria
contingência.
Bibliografia
BARTHOLOMEW,
D. God Chance and Purpose. Cambridge:
University Press, 2008.
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MacMillan and Co, Limited, 1922.
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Científico. Barcelona: Editorial Herder, 1988.
SOUSA ALVES, V. Acaso. In LOGOS – Enciclopédia Luso-Brasileira de
Filosofia – Primeiro Volume. Lisboa: Editorial Verbo, 1989.
Depois da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a liturgia do tempo
de Natal propõe-nos hoje uma outra Solenidade: a Epifania do Senhor.
Recordamos, neste dia, que Jesus vem para Se manifestar aos homens e
mulheres de todos os povos, nações, raças e culturas.
Ainda em ambiente do Presépio de Belém, o Evangelho de S. Mateus
convida-nos a contemplar a visita dos Reis Magos. Vêm do Oriente guiados
por uma estrela, trazendo presentes preciosos para entregar a Jesus.
Muito se tem dito sobre estes homens misteriosos, mas o fundamental é
ver neles, como dizia já Santo Agostinho no século V, as «primícias das
nações estrangeiras a Israel» que representam os povos vindos de todas
as partes do mundo. Se a história da salvação tinha tido um povo
predilecto – o povo hebreu – os Magos vêm lembrar-nos que somos todos
convidados ao banquete do Reino de Deus. Como diz S. Paulo na Epístola
aos Efésios, que hoje lemos, «os gentios recebem a mesma herança que os
judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em
Cristo Jesus, por meio do Evangelho». Na interiorização destas palavras,
avaliemos a forma como estamos disponíveis para os outros, como nos
abrimos à novidade de quem nos rodeia e é diferente de nós. Temos de ser
universais nos nossos gestos de acolhimento e serviço, para
continuarmos em nós a obra do próprio Deus.
Um outro aspecto curioso do relato dos Magos é a referência à estrela
que os guia até Belém. No caminho, são interpelados pelo rei Herodes,
que sente ameaçado o seu poder. No nosso caminho de fé também nos
deparamos com «estrelas» que nos levam a Deus, no testemunho de pessoas
santas, simples e discretas, que manifestam com a vida o amor de Deus
pelos homens; por outro lado, há muitos «reis Herodes» que nos seduzem
com formas de vida que afastam de Deus, nas lógicas de manipulação,
falsas ideologias, jogos de poder e de influências que aprisionam. Temos
de caminhar vigilantes e atentos, discernindo os acontecimentos e
formando bem a consciência, para não perdermos o rumo certo.
Por fim, a manifestação da divindade de Jesus revela-se nos presentes
que os Magos Lhe oferecem: ouro, incenso e mirra. Ainda o mesmo Santo
Agostinho, num sermão da Epifania, dizia que «se oferece o ouro a Jesus
como a um grande rei, queima-se o incenso na sua presença como diante de
Deus e oferece-se a mirra como a quem haveria de morrer pela salvação
de todos os homens». O ambiente natalício recorda-nos que Jesus é o
nosso Salvador, é n'Ele que devemos colocar os tesouros das nossas
vidas, pondo a render os dons que vamos recebendo, as pessoas que nos
rodeiam, os sonhos e projectos que desejamos concretizar. Só Ele nos
pode conduzir ao seu encontro e reunir na sua presença. Repetindo as
palavras do profeta Isaías que lemos na primeira leitura, «quando o
vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a
ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações».
in http://www.apostoladodaoracao.pt/index.php/oracao/meditacao-diaria