Para Durkheim, a religião, é antes de mais um “fenómeno social”. Esta
intuição nasce com base na observação de tribos Australianas, que para o
sociólogo francês são as que melhor apresentam as características típicas do
totemismo (embora este tenha sido
descoberto em primeiro lugar nas tribos Índias da América do Norte) e as que
apresentam maior segurança nos dados científicos: são completamente homogéneas
e embora apresentem variáveis entre si, estas tribos têm uma estrutura social
comum.
Por outro lado, o autor
defende que esta é a mais primitiva forma de religião que se pode encontrar,
contendo nesta, elementos comuns a todo o fenómeno religioso.
A maior parte destas Tribos
Australianas apresentam-se sustentadas por uma estrutura base: o clã. Os
indivíduos que compõem este grupo não se consideram próximos por terem algum
tipo de parentesco, por serem pais, filhos, primos, etc., uns dos outros, mas
por possuírem o mesmo nome, no sentido em que o grupo a que pertencem está
ligado indelevelmente como uma família por responder igualmente perante a mesma
palavra que os define, o totem, com o
qual têm uma relação visceral.
Apoiando-se na obra
Native Tribes
de Howitt
, Durkheim revela que são
descritos mais de 500
totem entre as Tribos do Sudoeste Australiano,
sendo que entre estes só aproximadamente 40 não são nomes de plantas ou animais
e, curiosamente, destes muito poucos são corpos celestes.
Seja como for a forma totémica, Durkheim, defende que a sua escolha
depende mais da organização do clã propriamente dita do que da religião em si,
ou seja, a escolha desta entidade é sociológica, e consequentemente, o que dita
a penetração do homem no transcendente é a sua rede social/ relacional. Por
isso o totem não é somente um nome,
mas um emblema distintivo, como um brasão ou um escudo. Ora, este emblema não é
simplesmente um elemento decorativo ou um objecto profano de identificação e
apreciação, como parecem aparentar certas pinturas no corpo, ou mutilações e
outras marcas que servem para aproximar o membro ao seu totem, mas, pelo contrário assumem uma inclinação sagrada, como por
exemplo a utilização de certas pinturas corporais, tatuagens, e outras, que são
usadas em certas cerimónias religiosas sendo uma parte integrante da liturgia.
Deste modo, para além de criar um laço colectivo, o totem é acima de tudo a referência do sagrado para o clã, pois a
diferença entre este e o profano a ele remetem: o totem é em si, o arquétipo do sagrado.
Toda a representação do
totem é, mais que uma simples imagem
relativa, um ser real, que desperta no Homem o sentimento religioso. Estas
representações são normalmente animais ou plantas que por serem elementos
sagrados não são passíveis de entrar na alimentação do clã, excepto em certas
ocasiões, nomeadamente rituais sagrados. O sacrilégio de profanar estes seres
sacralizados é punível com a morte instantânea
. Os únicos que não são abrangidos
por estas restrições são em certos casos os anciãos da tribo ou outros com
cargo religioso.
(Repare-se que o autor aponta aqui elementos comuns a todas as religiões, a
diferença entre o sagrado e o profano, as leis morais que começam a surgir sob formas
de proibições).
Como referido anteriormente, o
totemismo
é dominado pela noção de um princípio quase Divino imanente a certos elementos
animais, vegetais ou outros. Ora, como conceberia o Homem primitivo qualquer
ser transcendente a partir destes seres tão familiares ao quotidiano? Como é
que se produz na consciência deste mesmo Homem o sagrado associado a estes objetos?
De facto, alguns destes seres, não despertam o espanto ou o terror de certos
fenómenos atmosféricos como o trovão ou a chuva, pois, aparentemente, são
perfeitamente banais. Durkheim defende que não é a coisa em si que é a causa do
culto que se gera no
totemismo, caso
contrário seria esse mesmo objeto o Ser Sagrado por excelência, mas é aquilo
que é representado por ele, ou seja, é a quem ele remete o que possui o valor
máximo e não os objetos reais que não são senão um reflexo da coisa em si.
Daqui de conclui que o
totem não é
mais que um símbolo, a expressão material, por um lado, de um princípio divino
totémico e por outro da sociedade determinada que é o clã, a marca distintiva
em relação a outras comunidades. Deste modo, o divino associado ao
totem pode ser considerado como a marca
identitária do próprio clã em si, o símbolo simultaneamente divino e social
. De facto, a sociedade tem
tudo para despertar nos espíritos humanos a crença no sobrenatural ou no
transcendente, na noção de algo que é superior a si – um principio Sagrado –
que dita a forma de vida e está em contacto com o Homem crente e perante o qual
este assume um sentido de dependência que o projecta no Sagrado, o qual serve
através de diversos ritos, muitas vezes sacrificiais, e outras acções muitas
vezes contrárias à sua própria natureza humana. A própria sociedade, sendo
divinizada, atua como uma autoridade moral, que força o comportamento do Homem
numa determinada direção, individualmente e colectivamente através de
cerimónias religiosas e rituais.
São estas mesmas cerimónias rituais que provocam a separação da vida das sociedades
australianas em duas fases distintas: uma em que o clã se encontra separado,
ocupado nas tarefas quotidianas implicadas sobretudo na obtenção de alimentos,
uma fase devotada à economia, sombria, ausente de manifestações de efusividade
e paixão e uma outra fase em que os elementos da comunidade se congregam num
determinado espaço por um determinado período, onde se realizam determinadas
cerimónias religiosas, provocando no individuo um excitamento descontrolado,
entrando o Homem numa espécie de transe animalesco e muitas vezes violento.
Este tipo de acontecimentos, estes ritos que representam as mais primitivas
formas de manifestação religiosa, como o demonstra a descrição de uma festa que
os Warramunga costumam celebrar em honra da serpente Wolunqua, são de grande importância
no contexto social ao dividir o mundo e o tempo entre o sagrado e o profano. É,
segundo Durkheim, nestes ambientes que terá surgido o sentimento religioso.
Ora, como o clã terá despertado nos seus membros a ideia do religioso tem
que ver com o facto de o totem ser um
emblema. De facto, a ideia de um determinado objeto e o seu significado,
imprimem no Ser Humano um determinado sentimento como se ambos estivessem
sempre indelevelmente ligados. A coisa representada é
sempre mais abstracta para o espírito, por isso o símbolo que a representa,
mais simples, torna-se mais facilmente entendível e por isso mais próximo do
indivíduo. O totem é exactamente este
símbolo da comunidade que congrega em si toda a teia complexa de relações
dentro do clã, tornando este último uma unidade concreta, superior a qualquer
um dos indivíduos e que se projeta num objeto que de facto está presente à sua
volta. Neste objeto, comum a todo o grupo, porque próximo de todos os elementos
do grupo, estão congregados todos os sentimentos da comunidade, tornando-se
deste modo, ponto de convergência e fundamento sócio-identitário da mesma,
permanente geração sobre geração, sendo claro que só dele podem emanar as
forças misteriosas que emocionam os elementos do grupo e que será objecto de
culto consoante seja necessário aplacar ou provocar as estranhas energias que
parecem emanar de si.
Como o princípio totémico é o próprio clã, pois a entidade transcendente
que aparece como externa ao Homem, este só se pode realizar através dele, que
se torna imanente ao próprio clã. É isto que sacraliza o próprio Homem e a
sociedade em que vive, o que necessariamente transforma a religião num fenómeno
social. O
totem não é outra coisa
senão o clã representado materialmente
.
O Sociólogo Francês postula portanto, que não há sociedade sem religião e
que no fundo esta última potencia a sociedade. De facto, no Homem primitivo, a
moral social e a religião sobrepõe-se, pois as pessoas encontram-se vinculadas
por padrões de comportamento e atitudes, sobretudo rituais, que através dos
símbolos a eles associados, indicam claramente a força mobilizadora da religião
que confere sentido à vida humana como ser social. Assim a religião é algo
conatural à formação e manutenção das comunidades primitivas.
Francisco Cortês Ferreira