A questão central em toda
esta problemática é o quê/quem é “Deus” para Espinosa. De facto, este Deus não
é o da tradição judaico-cristã, no sentido em que não é transcendente, ou
ontologicamente distinto do mundo criado, mas imanente, o Deus sive Natura, o Deus-Natureza. Neste sentido, Espinosa rejeita
o Deus Antropomórfico, Omnipotente, Omnisciente, Juiz da acção e vida humana
que recompensa ou destrói, consoante o comportamento humano.
Na parte I da Ética, o Filósofo Holandês afirma que Deus-Natureza é um todo
substancial indivisível, incausado, sendo que fora dele nada existe e tudo o
que existe é parte dele, e que tudo é trazido para o Ser necessariamente,
através das leis da Natureza.
Ora, este entendimento
de Deus, que cria necessariamente e pré-deterministicamente, não por
bel-prazer, mas pelo seu poder absoluto, leva Espinosa a afirmar que não há uma
teleologia ou finalidade na Natureza, e nada existe por nenhuma razão especial,
ou seja, usando linguagem aristotélica, não existe nenhuma “causa final” na
Natureza, tudo existe somente através da “causa eficiente”. O Deus-Natureza não
age com um determinado objectivo, a ordem das coisas apenas seguem a
necessidade da criação. Afirma Espinosa: “Todos os prejuízos que me cumpre
indicar dependem de um só, a saber: os homens supõem comummente que todas as
coisas da Natureza agem, como eles mesmos, em consideração de um fim, e até
chegam a ter por certo que o próprio Deus dirige todas as coisas para um
determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas em consideração do
homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto”. Ataca deste modo as
religiões organizadas, associando-as a superstições enganosas. Continua
Espinosa: “ [como as pessoas] encontram em si e fora [de si] bastantes coisas
que são meios que contribuem não pouco para que alcancem o que lhes é útil,
como, por exemplo, olhos para ver, dentes para mastigar, vegetais e animais
para alimentação, sol para iluminar, mar para sustento de peixes, são levados
as considerar todas as coisas da natureza como meios para a sua utilidade
pessoal. E porque sabem que tais meios foram por eles achados e não dispostos,
daqui tiraram proveito para acreditar na existência de outrem que os dispôs
para que os utilizassem”.
Com efeito, depois de
haverem considerado as coisas como meios, não podiam acreditar que elas se
criassem a si mesmas, e dos meios que costumam dispor para seu uso próprio
foram levados a tirar a conclusão de que houve alguém ou alguns regentes da
Natureza, dotados como os homens de liberdade e que cuidaram em tudo que lhes
dissesse respeito e para sua utilidade fizeram todas as coisas. Prossegue
Espinosa afirmando, num fio condutor: “Quanto à compleição destes seres, como
nunca ouviram nada a tal respeito, também foram levados a julgá-la pela [pela
compleição] que em si notaram. Daqui, haverem estabelecido que os deuses
ordenaram tudo o que existe para uso humano, a fim de os homens lhes ficarem
cativos e de serem tidos em suma honra; donde o facto de haverem excogitado,
conforme a própria compleição, diversas maneiras de se rende culto a Deus, para
que Deus os estime acima dos outros e dirija a Natureza inteira em proveito da
sua cega apetição e insaciável avareza. Assim, este prejuízo tornou-se
superstição e lançou profundas raízes nas mentes.”
.
Numa carta a Hugo
Boxel, Espinosa enfatiza o seu desacordo em relação à imagem de Deus como um
“homem perfeito” quando afirma que “Quando você diz que não compreende que tipo
de Deus eu concebo, quando eu Lhe nego as acções de ver, ouvir, assistir, da
própria vontade, etc., e que Ele possui essas faculdades num grau perfeito, eu
suspeito que você acredita que não existe perfeição maior do que a que pode ser
explicada pelos supracitados atributos. Eu não fico surpreendido, que Eu
acredito que um triângulo, pode, na mesma linha, afirmar que Deus é um
triângulo perfeito, e um circulo afirmar que Deus é um círculo perfeito”.
Para além da rejeição
da perspectiva antropomórfica de Deus, tão vigente no
seu tempo, no escólio da proposição XV, Espinosa defende a possibilidade de
Deus integrar a matéria, o que é incompatível com a transcendência divina: “
desconheço a razão pela qual a matéria seria indigna da natureza divina...”. Para Espinosa, aqueles,
defensores da religião tradicional, que pregam a conduta moral como modo de
evitar a ira de Deus, apenas levam os seus ouvintes à superstição e não à
iluminação. Deste modo, também a crença em milagres e a projecção de propósitos
divinos nos fenómenos da Natureza é precisamente ignorar as causas por detrás
desses fenómenos. “ Como efeito, se, por exemplo, uma pedra cair de um telhado
sobre a cabeça de alguém e o matar, demonstrarão da seguinte maneira que a
pedra caiu para matar esse individuo: se não caísse com tal fim, por vontade de
Deus, como é que tantas circunstâncias (pois na verdade é frequente concorrerem
muitas simultaneamente) poderiam dar-se encontro naquela queda? Responder-se-á,
talvez, que o acontecimento ocorreu porque o vento soprou forte na ocasião e o
indivíduo tinha de fazer caminho por esse sítio. Insistirão, porem: porque
soprou o vento na ocasião e porque é que o indivíduo tinha de passar por esse
sítio nessa ocasião? Se se retorquir que o vento se levantou na ocasião porque
no dia precedente, com tempo até então calmo, o mar começara a agitar-se, e o
individuo havia sido convidado por um amigo, replicarão de novo, dado não haver
fim ao perguntar, porque é que o mar se agitou e o individuo fora convidado
para tal ocasião, não cessando de perguntar as causas das causas até que o
interlocutor se refugie na vontade de Deus, isto é no asilo da ignorância”.Neste sentido, Espinosa
defende a absoluta autonomia e independência de Deus, sem uma implicação da Sua
vontade no decurso dos fenómenos Naturais.
Espinosa
rejeita, portanto, como vimos, por completo a visão antropomórfica de Deus com
as suas características morais e psicológicas, segundo ele, muito afastadas do
verdadeiro Deus. Afirma, categoricamente: “Além disso, esta concepção deita
[por terra] a perfeição de Deus”.
Ora,
toda esta descrição anterior implica que Espinosa seja ateu ou apenas que a
concepção de Deus de Espinosa se afasta da tradicional judaico-cristã?
Espinosa possuía uma
concepção racionalista e impessoal de Deus, que possui certas funções
metafísicas causais, sem quaisquer características psicológicas ou morais. Ora,
não deveríamos imputar semelhante “acusação” de ateísmo a Descartes, cujo Deus
possui um papel metafísico e epistemológico muito importante na sua filosofia?
Não será o Deus de Descartes filosófico?
A dificuldade maior na
concepção espinosiana de Deus, o que traz a problemática do teísmo é a
identificação de Deus com a natureza e a eliminação da transcendência de Deus,
o que é distintivo sobre as várias formas de panteísmo. O termo “panteísmo”
pode ser entendido em dois sentidos: Primeiro, como a assumpção de que Deus é
ontologicamente distinto do mundo e seu conteúdo, mas, no entanto genericamente imanente ou
contido dentro dele, talvez no sentido em que a água está contida numa
esponja ensopada ou o sumo está contido num fruto. Este é chamado o “panteísmo
imanentista”. Em segundo lugar, panteísmo pode ser entendido como a afirmação
que Deus é de facto, idêntico a tudo o que existe. “Deus é tudo e tudo é Deus”.
Neste sentido, Deus é o mundo e tudo que ele contém e nada distinto dele. Este
é o “panteísmo redutivo”.Apesar do facto de
Espinosa afirmar que Deus é imanente à Natureza, não o é no sentido imanentista
do primeiro termo.
A
expressão Deus sive Natura pretende afirmar
uma identidade estritamente numérica entre Deus e a Natureza e não o conteúdo
da relação. Deus não está na Natureza no sentido em que a Natureza o contém
como um distinto conteúdo divino e sobrenatural. Não há nenhum espírito ou
chama divina entre as coisas naturais ou sob a Natureza como um todo. Pelo
contrário, Espinosa é panteísta no sentido redutivo. Se o panteísmo é a visão
de que Deus é tudo, então Espinosa só é panteísta se identificar Deus com toda
a Natureza, isto é, se ele adoptar a interpretação inerente à relação entre
substancia e os modos na sua metafísica.
Mesmo que Espinosa identifique Deus
com toda a Natureza, não significa que seja panteísta. O problema real não é a
leitura correcta da concepção metafísica de Deus em Espinosa. Outra possível
interpretação é que Espinosa se move num campo reductivo e naturalista. Deus é
idêntico com, quer parte, quer toda a Natureza. Por esta razão partilha algo
com o panteísmo, mas até o ateísmo pode, sem grande dificuldade, admitir que
Deus não é outra coisa senão a natureza. Panteísmo Redutivo e ateísmo são, em
termos ontológicos, extencionalmente equivalentes, já que nenhum admite nada
que seja para além do que é natural – sobrenatural.
Mais, a questão do
panteísmo de Espinosa é respondido no lado psicológico das coisas, entendendo a
verdadeira atitude tomada mediante a expressão Deus sive Natura. O que distingue realmente o panteísmo do ateísmo
é que o panteísmo não rejeita as atitudes psicológicas religiosas requeridas
pelo teísmo. O panteísmo simplesmente afirma que Deus, um ser diante do qual se
toma uma atitude de louvor, é ou estende-se através da Natureza. Nada pode ser
mais para além do espírito da filosofia Espinosiana. Como vimos, Espinosa, não
crê que essa atitude de adoração é correcta diante Deus ou a Natureza. Não há
nada sagrado acerca da Natureza. Não é o objecto de uma experiencia religiosa e
não há espaço, no sistema de Espinosa para o mistério diante da Natureza. Em
vez disso, deve-se lutar para entender Deus-Natureza, com um distinto conhecimento
intelectual que revele as verdades mais importantes da natureza e mostre como
tudo depende essencialmente e existencialmente de causas naturais mais
elevadas.
Por Francisco Cortês Ferreira
