O «real» ao qual o homem acede
nunca é imediato, bruto, não informado; é desde sempre já assumido por um
conjunto de representações culturalmente recebidas, como vimos no primeiro
capítulo. Cassirer, entre muitos outros, mostrou que estamos perante uma
estrutura simbólica constitutiva da humanidade, a qual, contrariamente aos
animais, não encontra em si as regras e as normas da sua conduta, logo, está
desprovida de uma perfeita adaptação ao «real»; por este motivo, o homem deve
adquirir os meios para assegurar a sua condição através de um conjunto bastante
complexo de normas, princípios e referências ideais, e isso começa desde a
apropriação pela criança do seu próprio corpo, como foi mostrado de maneira
convincente pelas análises de Mauss sobre as técnicas do corpo. Mesmo o modo de
dormir, de se alimentar, de se lavar, já para não referir o modo de falar, é
recebido por e numa determinada cultura. É esta estrutura simbólica que permite
compreender que nunca nos encontramos num dado factual, um facto «real» bruto,
mas sempre perante algo construído e elaborado. O realismo arrisca-se a ser
insuficiente ou totalmente medíocre se negligenciar este dado antropológico;
qualquer facto social é já portador de um valor e a inteligência desse valor
passa pelo desvio do sentido tomado por este facto social no conjunto de uma da
cultura (o que significam os ritos funerários? A crença na imortalidade ou nos
antepassados? Porquê esse sistemas de repartição de bens? etc.). Nesse sentido,
a dualidade facto-valor só é compreensível em relação a um terceiro termo que
liga o facto ao valor e o valor ao facto, isto é, o sistema simbólico onde
ambos encontram lugar e sentido. Esta simples triplicidade permite sair de um
dualismo no qual cada termo é indefinidamente remetido para outro, sem que se
possa sair da polissemia, como vimos anteriormente.
21 de abril de 2014
14 de abril de 2014
Valadier IV - Tolerância mole
A tolerância «mole» onde cada um
é enviado para «o seu negócio», logo para a sua solidão de indivíduo, isto é,
soberano, é destrutora das identidades pessoais tanto como da ligação à
sociedade. Os valores aos quais se adere podem e devem ser justificados perante
si próprio e perante os outros para tomar forma humana e não ter caprichos
injustificados; temos também toda a razão de perguntar ao outro as razões da
sua própria adesão aos valores ou às crenças que não partilhamos, que nos
admiram ou escandalizam. A tolerância assim compreendida é o trabalho da
conversão comum onde cada um sabe que só existe na relação com o outro e é
suportado por ela. Não se trata de interrogar para converter para si, para as
suas ideias ou para as suas verdades, e não apresenta sequer as suas posições
próprias como padrão de verdade com o qual tudo deve ser medido. A interrogação
mútua, que não se deve aliás conceber à maneira de uma espécie de
interrogatório generalizado e permanente, chama cada um a verificar as suas
próprias crenças e a construir um pouco mais de verdade em si próprio, logo a
abrir-se mais francamente. Nesse sentido, o relativismo que consagra não
importa qual opinião do momento de que é proprietário, ultrapassa neste
trabalho de relação mútua, trabalho pelo qual se tece secretamente e
continuamente a ligação social.
7 de abril de 2014
Valadier III - Antinomias da ação
A ação comporta antinomias, nem
todas as escolhas são compatíveis ao mesmo tempo, é preciso existir aí
sabedoria para reconhecer este limite e esta finalidade, «a existência
histórica ´feita de combates duvidosos onde nenhuma causa é pura, nenhuma
decisão é sem risco, nenhuma ação sem consequências imprevisíveis» (Raymond
Aron), mas a sabedoria manda ao mesmo tempo que se fique atento a uma secreta
complementaridade de valores entre elas, a não ser que se caia no
unilateralismo cego ou no fanatismo.
A solução proposta consiste
[falamos de Weber], vimo-lo a propósito do ensino universitário, em excluir da
esfera pública as opções julgadas arbitrárias e a esse título virtualmente
polémicas; mesmo se a palavra não for pronunciada, trata-se de uma laicidade
exclusiva muito rigorosa, de que uma das consequências, que já notamos, rebaixa
as opções filosóficas ou religiosas a uma escolha injustificável, privada,
marginal. Ora, vimos também, se a ciência não é sem pressuposto, pode um
ensinamento sê-lo? Em matemáticas talvez, mas com a condição de se cingir a um
ensino que passa em silêncio a história da disciplina, as hipóteses ou teorias
diversas, assim como os seus fundamentos filosóficos, o lento trabalho sobre as
opções que presidiram e presidem à evolução desta ciência, reduzindo em breve
esta disciplina a um saber morto, condensado em resultados incontestáveis,
apresentados como dados que se impõe por si próprios. E que dizer então de um
ensino em história ou em biologia? Mostrar aos estudantes os pressupostos
destas disciplinas nada tem a ver com a introdução das opções partidárias do
professor e não transforma um anfiteatro em tribuna de conferências. Fazer esse
trabalho é muito simplesmente dar ao ensino toda a sua dimensão e a sua
profundidade que um «laicismo» intransigente reduz a uma «matéria» inerte da
qual o estudante não tem as chaves de constituição e do desenvolvimento. Mas
como fazê-lo sem expor os valores e as crenças que presidiram à história e ao
progresso dessas disciplinas?
31 de março de 2014
Valadier II - Natureza, Liberdade, Ciência
Podemos certamente discutir a
teleologia da natureza, tal como foi concebida por Kant, e mesmo contestar a
sua estética onde a beleza oferece uma «passagem» entre natureza e liberdade;
daí resulta que aquele em que nos apoiamos muitas vezes para justificar o
dualismo entre facto e valor não pode ser reconhecido sem reservas nesta
paternidade. Seja como for, a posição kantiana chama a atenção para um ponto
essencial: um dualismo radical torna impermeável à inteligência das coisa
coisas, porque a liberdade está já em ação no próprio ato científico, ou ainda,
o facto científico só é estabelecido, concebido, testado a partir de um valor
do qual depende inteiramente, o valor atribuído ao conhecimento. Procurar
desenvolver as ciências e contribuir para isso pressupõe que achemos preferível
conhecer do que contemplar as coisas no seu estado. Tal foi a «decisão» que
presidiu ao desenvolvimento moderno das ciências. Tanto o seu progresso como o
desejo de objetividade científica implicam que os tenhamos posto mais alto do
que qualquer desejo de conhecer e que estejamos dispostos a sacrificar-lhe
muitos preconceitos e crenças. Nietzsche mostrou com lucidez que a ciência se
apoia ainda numa «numa crença», a crença na verdade como valor supremo em nome
do qual já nada tem preço e sobre o altar do qual «sacrificámos e degolámos uma
crença após outra». A ciência não se desenvolveu sem pressuposição, de maneira
neutra ou em nome da sua única utilidade, porque não é um cálculo que está na
sua origem; baseia-se numa crença, na crença de «que Deus é a verdade, que a
verdade é divina», ou seja, que não existe valor mais alto (ou mais divino) que
a verdade.
26 de março de 2014
Elogio dos Sentidos - Fé e Arte III
A
arte e a fé fecundam-se mutuamente numa dialética que eleva o Homem,
consagrando-o ao inefável que o seduz, provocando-o a, como afirma Bento XVI,
“não limitar os horizontes da existência unicamente à materialidade”. A beleza,
que desponta da inquietação artística, é ela própria uma porta para o Mistério,
dado que ecoa a necessidade de plenitude que o artista experimenta e que traduz
na contingência das suas próprias mãos.
A
arte é a expressão das grandes interrogações do Homem, que o movem e bloqueiam,
que o excitam e que o deprimem. Neste ponto, a fé atravessa-se de modo
irreprimível, catapultada pela transcendência que de modo subtil se torna
tangível aos sentidos. E estes, como portas abertas para o Mundo, são como
canais evolutivos, tornando o Homem um paradoxo, simultaneamente distinto e
encarnado num Comos cuja Beleza é desafio constante e último à própria razão
Humana. Perante a Beleza a Razão curva-se e a esperança renasce porque o
intangível se torna tangível ao Homem, Corpo e Espirito.
O evento Fé e Arte III
- Elogio dos sentidos: Do corpo e do
Espirito, que se realiza no próximo dia 5 de Abril, no auditório da
Faculdade de Filosofia de Braga, será um espaço de diálogo onde se cruzarão diversas
sensibilidades com o objetivo de discutir estas duas instâncias tão misteriosas
– a fé e a arte, mas ainda assim tão fundantes do espaço humano. Cada
perspetiva, cada orador, proveniente de quadrantes tão diversos como a música e
a poesia, passando pela arquitetura e a reflexão teológica, tem o desejo de
expressão, da sua expressão, cuja
vitalidade brota da sede de completude, da sede de sentido.
Mais
informações e inscrição on-line em http://www.fe-e-arte2014.com/
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